Artista deficiente cria molde à base de material usado por dentistas


Superar limites e manter vivo o sentimento de que ainda é possível realizar sonhos faz parte do cotidiano do deficiente físico. Ronaldo Serafim, 37 anos, formado em Odontologia pela Universidade Federal também vive esses desafios. Em agosto de 2009, ao retornar de um turno de 36 horas, sofreu acidente e teve fratura entre a sexta e sétima vértebras. Diante do diagnóstico da tetraplegia, a maior das frustrações seria deixar de pintar quadros, hobby que mantém desde a infância. Porém, Ronaldo não descansou diante da previsão pessimista.

O primeiro período de reabilitação já serviu para mostrar que a trajetória artística continuaria. Porém, o recomeço foi com dificuldade. Os primeiros quadros comprovaram que o talento estava intacto, mas havia muito desconforto na mão esquerda. Após um ano e quatro meses testando peças feitas por especialistas, a solução do problema surgiu através da experiência na área médica. Manipulando resina acrílica, material usado em diversas etapas do tratamento odontológico, Ronaldo Serafim fez um molde que simula com precisão a posição da mão ao pintar. O adaptador tem encaixe perfeito e recuperou o traçado. Para o artista, foi um divisor de águas:

“Talvez essa tenha sido a minha verdadeira grande ‘obra’, se comparada a qualquer outra pintura minha. A partir dali ganhei uma motivação que nunca mais me fez parar. Hoje percebo que pinto melhor do que antes da lesão medular” avalia Ronaldo.

A mesma habilidade e a solução para o problema da limitação motora fazem com que Ronaldo continue trilhando de produção de obras de arte e reconhecimento pelo seu talento. Até o presente momento, recebeu premiações em concursos na internet e participa de exposições de arte ao ar livre no Rio de Janeiro. A carreira profissional já começa a ser estudada.

Serenidade no pincel, intensidade nas quadras

Em meio a rotina, há momentos em que Ronaldo troca os instrumentos de pintura por luvas, bola e cadeira de rodas paradesportiva. Há dois anos, conheceu o Rugby em Cadeira de Rodas e hoje é jogador do Santer Rio, atual campeão carioca da modalidade. Em uma análise preliminar, a leveza do ato de pintar não tem relação com a tensão que o esporte reserva. Ronaldo acredita que esse contraste proporciona benefícios pessoais:

“Já me perguntaram como que um dentista que adora artes pode também gostar de um esporte de tanta adrenalina e tão intenso em força física. Apesar de parecerem hábitos muito distintos, acho que eles se completam. É bom ter novos desafios tanto para o cérebro quanto para os músculos” afirma o atacante de rugby adaptado.

O paradesporto teve a sua estreia olímpica em Sydney-AUS, 2000. O Brasil teve o seu principal resultado no Parapan de 2007, com o bronze. Projetando 2016, a Associação Brasileira de Rugby em Cadeira de Rodas prevê crescimento da modalidade e a montagem de um time que faça frente às principais seleções. As equipes e torneios se concentram em cidades como Rio de Janeiro, Brasília, Campinas, São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte.


Em todo tempo, superação

O testemunho de Ronaldo Serafim serve de apoio para os quase 20 milhões de deficientes físicos no Brasil, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Superar totalmente a ideia de que a vida será de limitações é uma tarefa quase impossível, mas buscar cumpri-la é um exercício que precisa ser constantemente realizado:

“Ser deficiente físico nunca foi fácil. Apesar de eu me considerar uma pessoa feliz, sinto falta de certos hábitos de antigamente, como por exemplo, correr na praia. Estaria mentindo se dissesse que hoje está tudo bem, mas sei que todos têm problemas, uns até bem maiores que o meu. Encaro a vida como uma grande escola onde aprendemos a ser pessoas melhores e felizes. Estou cumprindo meu papel” conclui.

*Texto: Divulgação/Assessoria de Imprensa
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