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Meu Pedacinho de Chão de Raimundo Rodriguez: muito mais que um universo paralelo, uma crítica a sociedade contemporânea

Texto e Fotos de Chandra Santos - Jornalista (MTb33739/RJ)



O artista plástico Raimundo Rodriguez em frente ao ateliê da novela
Depois de fazer a direção de arte das microsséries Hoje é dia de Maria, A Pedra do Reino, Capitu e Alexandre e Outras Heróis (todas da Rede Globo),  o artista plástico Raimundo Rodriguez retoma parceria com  o diretor Luiz Fernando Carvalho que o convidou para ser diretor do arte na novela Meu Pedacinho de Chão, exibida de segunda à sábado, às 18h, na TV Globo. Com apenas 100 capítulos, a trama (um remake da versão original de 1971) é escrita por Benedito Ruy Barbosa. 

É um caso raro ver um artista plástico contratado por uma TV no Brasil para desempenhar essa atividade profissional. Raimundo, que possui a galeria de arte Caza Arte Contemporânea, também edita o jornal especializado Página da Caza (que começou com espaço no caderno Artes do Jornal do Commércio, cresceu, e hoje é independente).




No último dia 3 de maio, ele guiou um grupo de artistas e admiradores pela cidade de Santa Fé onde é gravada a novela Meu Pedacinho de Chão. O passeio iniciou no "TVliê" onde são produzidos os figurinos da novela (assinados por Thanara Schönardie) e todos os detalhes das contruções locais, coordenada por ele e seus assistentes diretos: Luisa Gomes Cardoso (do Canteiro de Alfaces), Deborah Badaue, Sabrina Travençolo, Anderson Dias e Marcos Mariano. Eles, que o acompanham durante anos em diversos trabalhos, dão todo suporte no que é necessário. Outro destaque é César Coelho, criador do anima Mundi, responsável pelos Stops Motions na novela. A implantação da cidade é de responsabilidade de Keller Veiga. Já produção de arte responsabilidade de Marco Cortês. 

Raimundo e a equipe ao longo de quatro meses experimentaram ser "engenheiros da arte" construíndo a cidade cenográfica da novela, em uma área de cerca de 7 mil metros quadrados, unido elementos da cultura popular e referências artísticas de correntes como realismo, surrealismo, impressionismo, concretismo e expressionismo. Já com a novela no ar, eles continuam criando, reiventando e adaptando os cenários dessa sensível fábula atemporal.





Dezenas de sobrados, uma espécie de castelo, um celeireiro com feno, uma ponte, um casebre e até uma igreja no alto de um monte são os elementos principais da cidade fictícia de Santa Fé. Para entrar nesse mundo lúdico de forma física é muito fácil: basta pegar o trem em frente ao ateliê de Raimundo Rodriguez, descer na estação e seguir caminhando pelos trilhos. Acredite, o que você vê na TV não chega perto da sensação de estar lá dentro visitando Santa Fé. É tudo tão real, nos mínimos detalhes, feito com o maior zelo possível. Não é apenas um cenário. Há vida ali. A vontade é não sair mais de lá. Principalmente nos tempos em que estamos vivendo. 






Casa do Coronel Epa
Lembra muito uma cidade no interior, parada no tempo, que preserva tradições e valoriza a cultura e a arte. Um local onde as flores (um milhão segundo o próprio artista), grama, feno e árvores artificiais se misturam com a mata natural formando uma incrível sinfonia de cores e texturas. Olhando a primeira vista, não se distingue o real da fantasia. 







"Não reparem. Aqui nos convivemos com gambás. Outro dia apareceu uma cobra. Eles saem da mata e vem para cá. Tem vezes que voltam sozinhos, outras temos que chamar os bombeiros para retirar os animais e devolve-lôs a mata com segurança", conta Raimundo. 

O chão de terra (barro e areia) é cortando por vários trilhos de ferro e dormentes de madeira com direito à cascalho como toda ferrovia deve ter. Em cada ponto da estrada encontramos a casa de um personagem. 




Grande parte do material utilizado na construção do cenário é reciclado. Plástico e latas. Muitas. Um trabalho artesanal que faz qualquer pessoa chorar quando chega perto. Cada casa tem sua própria identidade visual. Na casa de Mãe Benta Raimundo foi o responsável pelo altar com diversas imagens religiosas e pela cruz na porta de entrada.

Além disso, os Latifundios (obra criada pelo artista e que vem sido aprimorada desde os anos 2000) estão presentes em diversas construções da cidade. Saiba mais aqui.



Casa de Mãe Benta

Cada local guarda uma personalidade própria adequada ao personagem ao qual é relacionado. A casa do Coronel Epa é sem dúvida uma construção imponente. Seus jardins enormes deixam qualquer pessoa boquiaberta. Mas, sem dúvida nenhuma, a Igreja é o local mais emocionante. Primeiro, por estar localizada em cima de uma parte mais elevada do terreno onde é possível ver toda a cidade em 360º. Segundo, porque nela há vitrais coloridos e um altar belíssimo em estilo barroco com imagens. Quando entramos nela sentimos a paz que uma igreja deve ter. Santa Fé tem energia. Uma energia boa. Positiva. Que renova qualquer pessoa que põe os pés lá. 



Sequência de imagens do interior da Igreja

A novela é sem dúvida uma produção cinematográfica para TV. Pela primeira vez temos uma trama com essa estética e apresentação. Foge do padrão, que toda novela costuma ter. Além disso, a história leve conversa diretamente com todas as classes sociais. Aborda de forma sutil problemas e mazelas sociais brasileiras. Sendo a ignorância como principal. A Professora Juliana e sua escola estão mostrando, sem precisar se impor, que a educação é a solução para todos os conflitos. Como se não estivesse de bom tamanho, a novela anda resgata valores que se perderam na sociedade, como família, amor, amizade, lealdade, sinceridade, honestidade, honra. A novela inclusive dialoga através de arquétipos, como mãe, pai, filho.


A Escola da Professora Juliana

Na estreia da novela li na mídia diversas críticas e ouvi comentários de pessoas próximas espantadas com a novela. Foi um choque momentâneo. Elas não entendiam o que estava acontecendo. Estamos, infelizmente, tão acostumados a ver como temas violência, morte, sexo, traição e consumo de drogas lícitas nos produtos culturais que esquecemos que isso não é o padrão ético sobre o qual a sociedade foi construída.

O artista plástico Raimundo Rodriguez segue em direção a Santa Fé
Meu Pedacinho de Chão é um portal para o universo dos sonhos das crianças e - principalmente - dos adultos (cansados de viver nesse modelo social e nesse mundo injusto). Uma vez que adentramos nunca mais Santa Fé e seus ensinamentos saem de nossas mentes e corações. 


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